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16/5/12

Como enfeiar uma cidade

COMO ENFEIAR UMA CIDADE
Hila Flávia

Em primeiro lugar, devo confessar que existem três lugares no mundo onde me sinto em casa. Entre os meus. A primeira é minha terra natal, Pará de Minas, que marcou minha vida, meus sentidos e meu coração. A segunda é Belo Horizonte, para onde me mudei pouco antes de me casar, há quase meio século, e que amo de paixão. E a terceira é o Povoado de Furnastur, distante uns 20 quilômetros da cidade de Formiga. Em 1978 fui passear lá e jamais o deixei. Transito entre meus três lares com o mesmo prazer. Gosto de ir, gosto de voltar. Torno a ir, torno a voltar. Nem sei mais qual prefiro. São iguais, cada lugar ocupando um terço do espaço no meu coração destinado ao quesito terra amada.
Mas hoje, vou tratar de Belo Horizonte. Nome acertado a uma bela cidade, que hoje preocupa todo mundo pela sua grandeza, sua densidade populacional, seu volumoso tráfego de veículos. Enfim, cada dia se torna maior e mais difícil se torna transitar nela.

O apelido dado a Belo Horizonte era de Cidade Jardim. Tantas eram as flores e árvores, praças enfeitadas, ruas arborizadas, quintais, casas com jardins cuidados. Hoje, nem tanto. Foram construindo grandes edifícios, pequenos espaços ocupados sem critério, as ruas apinhadas de veículos, ausência de banheiros públicos, de coletores de lixo, enfim, a capital de Minas Gerais está ficando cada dia mais feia e parecida com qualquer cidade grande do mundo. Está cada vez mais perdendo as características que a fizeram ser um jardim.
Antes de contar o porquê de minha indignação, vou apenas lhes contar um caso rápido. Numa tarde chuvosa me bateu uma abissal saudade. Chorei que nem cantou o Chico Buarque: Até ficar com dó de mim. Quando passou o surto, fiz uma lista de minhas saudades, que incluíam desde filho, pais e amigos perdidos, até pele alva, juventude, entusiasmo, etc. e tal. Quando li a lista, que digitei sem olhar, percebi que a única coisa que poderia recuperar seria minhas tranças. Quando jovem tinha um cabelo louro, lindo, que batia quase na cintura. E enrolava as tranças na cabeça que nem uma alemã. Mas era bonito que só vendo. A situação, com o passar dos anos, havia se modificado, pois de amarelo meu cabelo passou a ser cinza. Deixe-o crescer até o tamanho antigo, enrolei minhas tranças do mesmo jeito e fiquei toda feliz.

Agora, com relação a Belo Horizonte, o assunto é o seguinte: Não sei se todos sabem, mas existem inúmeros espaços na cidade, conforme a planta original, que deveriam ser largos e praças e que sofreram construções. Mas muitas mesmo. Deveria ser uma localidade farta de espaços de convivência e lazer. Quem quiser se informar melhor, é só entrar nos sites curraldelrei.blogspot.com.br/2010/06/os-quarteiroes-não-edificaveis-o-caso e curraldelrei.blogspot.com.br.

Apenasmente para exemplificar o descalabro, vou citar três exemplos:
1) A área onde construíram o Colégio Pedro II era para ser uma praça.
2) No triângulo existente entre o Parque Municipal e o Instituto de Educação, confluência da Avenida Afonso Pena, Avenida Carandaí e Rua Pernambuco, construíam os Edifícios Raposo Tavares e Louis Ensch. Era para ser praça.
3) E o pior de todos: o espaço compreendido entre a Avenida Afonso Pena, Rua da Bahia e Rua Tamoios foi um largo lindo. O Edifício Sulacap tem magnífica arquitetura, uma escadaria imponente e a vista para o viaduto Santa Tereza era o encanto de todos. Minha amada e saudosa mãe tinha um parente que trabalhou a vida toda num Banco que ocupava ala do edifício, e sempre íamos lá. E nunca me cansei de passar pela Avenida e ver até o fim do viaduto, seus arcos cheios de histórias e símbolo do passado de nossa capital e de seus escritores. Um dia, nos meados de 1970, num tempo em que ninguém podia dizer coisa alguma a respeito de coisa nenhuma, construíram na frente um “puxadinho” horroroso e provisório. Penso que sabiam do crime ambiental que estavam cometendo, tanto que nem gastaram muito na construção. O lugar se transformou num local perigoso. Pouco tempo depois procurei uma loja que vendia produtos ortopédicos naqueles corredores entre a avenida e a escadaria. Estava com grossas correntes e um enorme cadeado, que foram abertos para minha compra. O dono explicou que se cansou de ser assaltado e incomodado por ladrões, usuários de drogas e traficantes. Comprei o que precisava, com medo, e nunca mais voltei. Hoje sei que naquele espaço se transformou em banheiro público, esconderijos, lugar de drogas e pichações inconvenientes. Quem quiser ver é só passar por lá. E o “puxadinho” continua. Impávido. Ninguém sabe quem é o dono, quanto pagou de suborno para construir aquilo, quem autorizou construção em praça, quanto recebeu, e o que é pior, a quem podemos recorrer para que a vista seja restabelecida, o lugar revitalizado e saneado, tornando-se novamente usável pela população. E está localizado a uma quadra da Prefeitura Municipal. Centro da Capital de Minas Gerais.

A analogia com o caso de minhas tranças é porque considero o espaço do Edifício Sulacap o único que ainda pode ser recuperado. De todos, o único. Como elas representaram minha única recuperação do tempo passado. Como sempre, não conheço nenhum vereador a quem possa pedir uma providência, não tenho acesso às secretarias do senhor prefeito nem a ele. Portanto, dado ao meu estado de desimportância cidadã, e meu extremado amor por Belo Horizonte, peço a quem ler este manifesto à beleza que ajude nossa cidade. Se você tem algum prestígio, conhece alguém que tenha ou pensa que pode fazer alguma coisa, quer entrar nesta corrente?
É um convite que lhe faço de todo coração. Também espalhe esta intenção aos seus contatos. Quem sabe, não é? Afinal, sou brasileira, não perco a esperança.

criado por luizvianadavid    7:16 — Arquivado em: Sem categoria

15/5/12

Certaneju univerçitariú

CERTANEJU UNIVERÇITARIÚ

Não aprecio este estilo musical, se é que essa moda tem estilo e pode ser chamado de música. Mas o fato é que os sertanêjus universitários estão aí e infelizmente em grande número. Só no Pará de Minas deve existir uns trezentos deles, entre trios, duplas e solitários. Jovens promissores numa profissão qualquer, seja pedreiro ou pintor de paredes, mecânico ou balconista do comércio, escriturário ou operário, de repente se julgam donos de uma boa voz, que aliás, não é o quesito fundamental para o ingresso na carreira “artística”. Devia ser, mas não é. Ao candidato ao “estrelato” basta ter a coragem (ou a cara de pau) de subir ao palco e ao microfone zurrar algumas palavras, sem preocupação com o idioma, ou com a rima ou com a métrica.

Se há oferta é por que a recíproca é verdadeira, ou seja, existe público disposto a ouvir (pagando) o festival de obviedades que abunda na noite patafufense. Fenômeno que aliás não é exclusividade nossa. O virus musical do mau gosto espalhou-se por todos os cantos do Brasil, seja uma biboca lá fiofó do judas ou uma casa chique na mais cosmopolita das nossas cidades, certamente no final de semana estará se apresentando lá uma atração dessas aí. Com direito a letreiro na fachada anunciando: NESTA SEXTA, SENSACIONAL SHOW COM A DUPLA MARAJONEY & CLAUDYANDER. Constatação: certanêju universitariú adora a letra ípsilon. Se for feita uma pesquisa, será constatado que na maioria dos nomes artísticos desta turma o “pisilone” estará presente.

Noventa e oito por cento dos que se arriscam nesta carreira, eu presumo, serão anônimos para sempre. Um por cento deles sairão do anonimato para alcançarem a obscuridade; meio por cento serão obscuros e mesmo assim no âmbito estritamente regional, quem sabe, num raio de até vinte quilômetros de onde moram. Os restantes, integrantes do meio por cento final, terão quinze minutos de fama (lei de Andy Warhol), mesmo assim se conseguirem pisar no palco de uma emissora de tevê de segunda linha, em algum programa matutino, que dá traço de audiência.

Muitos desses corajosos tentaram antes o futebol. Participaram de um monte de “peneiras”, que, para quem não sabe, são aqueles testes onde os candidatos entram em campo, dão uma corridinha, um peteleco na bola e saem dez minutos depois, com algumas palavras de incentivo do “professor”, que também é chamado de “olheiro”. A chance de aparecer um craque numa peneirada desta é de um para cem mil aspirantes a Neymar. É o tal caso, quem nasceu para marreco jamais será um GANSO, neste caso o Paulo Henrique. Que aliás, diz a lenda, ter sido dispensado do glorioso Galo de Minas por um professor, provavelmente cego. Deve ser o mesmo que dispensou o Cafu, há uns vinte anos.

Ante a dureza que o futebol apresenta aos iniciantes, muitos decidem que cantar é mais fácil do que jogar bola, embora sejam inaptos para as duas atividades. E vão então engrossar as estatísticas musicais do país.

Mas nada é tão ruim que não possa piorar, já dizia vovô David Indalécio, seja o que for, se hoje estiver ruim, amanhã estará pior. E a epidemia de univerçitariús certanêjus acabou produzindo um virus ainda mais letal. O empresário do dito cujo. Geralmente é um pouco mais velho, não tem mais idade para jogar no sub-35 do Esperança F.C., nunca teve voz para ser nem o segundo da dupla, além disso, um resfriado mal curado que teve na infancia, faz com que fique afônico se falar por mais de cinco minutos ininterruptamente. Mas o empresário tem um trunfo: a agenda de contatos. Por exemplo, é amigo de um cara casado com a irmã de um vizinho do programador da rádio Musical FM, de Barranquinho de Cima. Além disso foi colega na primeira série do ensino fundamental, do suplente de vereador Chiquim da Miroca, da cidade de Barranquinho de Baixo, que é sogro do sócio minoritário da rádio FM da localidade, a popular Rádio Som, que fala baixo no centro e cochicha nos bairros. E empresário de aspirante a cantor sempre tem um estúdio à mão, para facilitar a gravação dos CDs de seu pupilo. Nem que seja uma sala de paredes forradas com placas de isopor de antigas caixas de picolés.

E este mundaréu de candidatos ao estrelato já influencía até a economia da cidade. Há uns dois dias que a maior indústria do municipio coloca aúncios na imprensa e distribui panfletos nas ruas comunicando a abertura de dezenas de vagas em seus quadros, pagando salário acima do mínimo, tíckete alimentação, vale-transporte, plano de saúde extensivo aos familiares, premios por assiduidade e outras benesses. Não está conseguindo preencher as vagas e já está apelando para trabalhadores de cidades vizinhas.

Sugeri a um conhecido meu, que está na estrada da vida há alguns anos, que encostasse a viola e encarasse uma vaga na fábrica de iogurte e passasse a ter a música apenas como hobby de fins de semana. É bom frisar que o “artista” está com com dois boletos de água vencidos e há algum tempo fez um gato na rede elétrica. Além disto, está devendo em todos os postos de gasolina da cidade o combustivel de seu fusquinha 74, verde. -Inteiraço, diz ele, -enjeitei cinco mil, mas quero sete. Para ser sincero o carro é uma furreca, que só abre uma porta (a do passageiro), está com todos os pneus carecas, alataria bem judiada e o parabrisas trincado, além de só pegar no tranco, está com o IPVA atrasado onze anos.

Sobre a sugestão de emprego, ele apenas respondeu que artista não trabalha de carteira assinada, e que está com dois shows programados para os próximos finais de semana, a cento e cinquenta reais cada um. Nas prósperas comunidades de Pinduquinha e de Marinheiro. Do cachê, trinta por cento é do operante empresário, que já está agendando apresentações em Pindaíba do Pequi e Ribeirão das Almas.

Mas como tudo que é ruim pode piorar, no horizonte certanêju univerçitáriu, vem surgindo o certanêju univerçitariú gospel, adeptos da música evangélica.

criado por luizvianadavid    11:25 — Arquivado em: Sem categoria

14/5/12

Transparencia na gestão do parque de exposições: um tema que precisa ser discutido na próxima campanha eleitoral

O candidato a prefeito que quiser melhorar a sua performance eleitoral, tem de tomar, desde já, uma posição de enfrentamento (de enfrentar, bater de frente, contestar) com os responsáveis pela organização das festas no parque de exposições. Há pelo menos doze anos que a população vem sendo passada para trás, de forma acintosa, pelos promotores de eventos. Paga caro pelo ingresso, é roubada (do verbo roubar, soletrando : R O U B A R) nos preços de tudo que consome no interior do parque: seja um picolé ou uma lata de cerveja. Tudo, tudo mesmo, que é vendido lá dentro tem o preço majorado muitas vezes em até 300%. Uma garrafa de água de água mineral por três reais ? E não dá pra culpar apenas os comerciantes e barraqueiros pelos preços abusivos. Eles também são vítimas do esquema impiedoso. Bebidas em geral até chegarem às prateleiras dos bares e barracas passam antes por pelo menos dois atravessadores, e os baristas e barraqueiros acabam por pagar o pato, pois têm de vender o produto com uma margem de lucro que lhes permita, pelo menos cobrir o cheque de caução que tiveram de entregar ao promotor do evento, para garantir o lugar. Na festa que terminou há poucas horas, o aluguel de um bar custou cinco mil reais por quatro dias. Isto é, o sujeito já começa a trabalhar devendo 1.250,00.

Hoje, durante sua participação no informativo matinal da rádio Santa Cruz, o repórter Amilton Maciel criticou duramente os organizadores da festa. Comentou sobre o absurdo de que pela primeira vez aconteceu uma exposição agropecuária sem a presença de uma única vaca. Concordo com o repórter que foi um absurdo, mas não a primeira vez. Já tivemos pelo menos outras duas exposições sem a presença de bovinos. Assim como já aconteceram festas do frango, sem que ninguém visse sequer uma pena no parque.

As festas no parque de exposições de Pará de Minas se transformaram na verdade numa autêntica caixa- preta, onde os números finais nunca aparecem. Ou são apresentados resultados tão ridículos que ninguém acredita neles. E são milhões de reais por ano. É comum já há alguns anos as duas principais festas serem organizadas por um único empresário. As duas somadas têm um público pagante em trono de cem mil pessoas. Com o ingresso custando em média trinta e cinco reais, é só fazer a continha e teremos no caixa três milhões e meio de reais. E ainda têm as outras fontes: aluguel de bares, barracas, bancas, boates, stands. No mínimo mais uns duzentos mil reais são arrecadados. Pessoas que conhecem do metiê afirmam que numa festa de quatro noites, só a renda desses aluguéis pagam os shows de três noites.

E como têm sido confusos os domingos no parque de Pará de Minas. A Câmara Municipal votou uma lei em que o acesso ao parque aos domingos é liberado ( DE GRÁTIS, como gosta de dizer o povo) à população. No ano passado, a principal atração da festa, a cantora Paula Fernandes, foi programada para a noite de domingo. Eram esperadas no mínimo vinte e cinco mil pessoas para a apresentação. Mas foi tanta a confusão sobre a aplicação da lei, um abre não abre sem fim, que o público final foi de menos da metade. Inclusive durante o dia as familias não compareceram.

Para ontem, o show infantil, com uma dupla de palhaços, começou quase às nove da noite, quando a meninada já tinha ido embora.

Só para registrar: a Câmara de vereadores, em vez de exigir seriedade do promotor de eventos, prefeiru oferecer-lhe um DIPLOMA DE HONRA AO MÉRITO, por “bons serviços” prestados à cidade. Isto, no ano em que o empresário exigiu a demolição do tatersal que havia no parque. Não se faz outro igual com menos quinhentos mil reais.

O mais triste, é que a população vê o parque se acabar aos poucos. Apenas não virou ruinas ainda, porque foi construido com material bastante sólido.

Outra comédia: há poucos dias o prefeito enviou a Câmara um pedido de liberação de verbas para promover algumas reformas no parque.Um verba ridícula de cinquenta mil reais, uma merreca, uma gota d’água. Uma reforma do parque não sai por menos de umas vinte vezes a verba pedida. Mas foi feito tanto barulho, que parece até que era para fazer uma restauração completa do lugar.

E antes que a minha pressão bata nos vinte, duas perguntas: afinal quem é o responsável pelo parque de exposições de Pará de Minas, é a prefeitura ou é o sindicato rural ?

E por que o cargo de presidente do sindicato rural, antes de pouca visibilidade e considerado cargo de honra, que poucos se dispunham a exercê-lo, por exigir demanda de tempo e por dar muito trabalho, é agora tão disputado ?

Este assunto tem de ser prioridade nos debates eleitorais que se aproximam.

criado por luizvianadavid    10:17 — Arquivado em: Sem categoria

12/5/12

Crepe Suzette

TaquiPraTi
José R. Bessa Freire

NEIVA MOREIRA, O CONTADOR DE HISTÓRIAS
José Ribamar Bessa Freire
13/05/2012 - Diário do Amazonas

Éramos três amazonenses solitários exilados no Peru nos anos 1970: o titiriteiro Euclides Souza, o antropólogo Felipe Lindoso e este locutor que vos fala. A gente juntava as panelas aos domingos para comer “paiche” (pirarucu) ou “palometa” (pacu), comprados na Casa Charapa, uma biboca que vendia produtos amazônicos no bairro popular de La Victoria, em Lima. Ouvíamos, então, Chico Buarque, Gil, Caetano, Vandré e Martinho da Vila, falávamos mal da ditadura, fazíamos planos de regresso à pátria e - enquanto isso não acontecia - matávamos as saudades culinárias com farinha do Uarini e pimenta murupi que dona Amine mandava de Manaus.

Num desses domingos amazônicos em que sonhávamos com o socialismo, chegou um quarto integrante: o poeta Thiago de Mello, que morava na Alemanha e passou por Lima como um meteoro. Tudo bem: os três mosqueteiros também eram quatro.

Thiago trouxe para o almoço dominical um amigo, exilado, em cuja casa se hospedara: o maranhense Neiva Moreira, recém-chegado do Uruguai, de onde viera para residir em Lima. Foi assim que conhecemos um dos mais divertidos contadores de história.

Neiva, o nova-iorquino, cativou a todos nós, narrando a própria vida. Filho do quitandeiro Tonico e da professora Luzia, ele contou que nascera na data certa: 10 de outubro de 1917, dia da tomada do Palácio do Inverno, na Rússia. Não havia data melhor para um defensor do socialismo moreno. “Fui parido na mesma hora em que a revolução russa” - dizia - “durante os dez dias que abalaram o mundo”. Mas o lugar é que foi errado: Nova Iorque, uma cidadezinha com cheiro de imperialismo, no interior do Maranhão, divisa com o Piauí, às margens do rio Parnaíba. Tinha até, como sua homônima ianque, a ponte do Brooklyn - uma precária pinguela de madeira ligando Manhatan - a prainha do lago à praia do Caju.

Brinde de lavanda

Entre um pacu e outro, regado a goles de pisco acholado - que ninguém é de ferro - Neiva, que era um bom garfo, nos ofereceu um brinde de lavanda e uma crepe Suzette, que agora compartilho com vocês. Foi assim. De família pobre, depois de atuar como repórter em alguns jornais do Maranhão - O Pacotilha e o Diário do Povo - ele migrou para o Rio de Janeiro com uma carta para Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, que o contratou imediatamente com o salário mínimo, com o qual mal sobrevivia.

A revista O Cruzeiro, naquele momento, encerrava uma grande campanha para ajudar as vítimas das chuvas e das enchentes que castigavam a região sudeste. Chateaubriand promoveu, então, um senhor banquete no Hotel Glória, homenageando os principais doadores, entre os quais o Seu Manoel, um fazendeiro português do interior de Minas Gerais, que presenteara O Cruzeiro com nada mais nada menos que um helicóptero usado para transportar vítimas e donativos. Por isso, no banquete, ele aterrissou em lugar nobre, sentado ao lado do próprio Chatô.

Os discursos se prolongaram antes da comida. Seu Manoel, homem simples, do campo, não tirava os olhos da tigela de prata que estava à sua frente, na mesa, em um prato sobre uma toalhinha. Dentro dela, água, cheirando a hortelã, com uma rodela de limão e duas pétalas de rosa. Era para lavar as pontas dos dedos, antes de encarar o hors d’oeuvre. O portuga, que desconhecia aquela presepada, não esperou terminarem os discursos para saciar sua sede. Pegou a tigela e gute, gute, bebeu toda a água. Os risinhos dissimulados dos presentes foram cortados por Chateaubriand:

- Está geladinha, Seu Manoel?

Chateaubriand não esperou resposta. Propôs um brinde ao fazendeiro, levantando a sua tigela e bebendo, ele também, a água de lavar os dedos, sendo acompanhado por todos os puxa-sacos presentes, incluindo o Neiva, que não era puxa-saco, mas estava com muita sede e pensou que aquilo era mesmo água de beber, camará.

Quando o garçom passou com o menu, Neiva, na maior pindaíba, com uma fome nordestina, de retirante, leu e não entendeu bulhufas. Só tinha pratos franceses. Ficou na moita. O cidadão, sentando à sua direita, com um ar de entendido, pediu uma “bouillabaisse” de Marselha. Sem saber que diabo era aquilo, Neiva confiou:

- Pra mim, o mesmo.

Logo depois, serviram-lhe uma sopa de peixe, que não era tão deliciosa como a caldeirada de camarão com pirão da Base do Germano, nem tinha o refinamento do arroz-de-cuxá, mas “deu pra quebrar o galho ” - admitiu Neiva, reconhecendo que seu vizinho à mesa tinha gosto apurado.

Veio a hora da sobremesa. Outro menu complicado. Neiva procura um doce de bacuri ou de buriti, uma compota de jaca, um não-me-toques, uma mãe benta, um quindim de iaiá, um papo-de-anjo, uma baba de moça ou uma reles cocada. Necas de pitibiribas! A lista era ameaçadora, cheia de nomes intraduzíveis, que não davam sequer para suspeitar do que se tratava: mille-feuilles, clafoutis, petit gâteau, madeleine, bûche de Noel, creme brûlée, profiteroles. Ele esperou que o vizinho sentado à sua direita escolhesse, para imitá-lo. Mas o cara era diabético e declinou, da mesma forma que o vizinho da esquerda.

Crepe Suzette

Desamparado, não querendo perder a boca livre, Neiva percorreu outra vez a lista e se deteve sobre algo que lhe pareceu familiar e pronunciável. Audacioso, pediu:

- Crepe Suzette!

E justificou para nós, que ouvíamos sua história:

- Nunca havia visto aquele nome. De qualquer forma, crepe é crepe em qualquer lugar do mundo, tem crepe até de tapioca. E Suzete era o nome de uma tia minha que morava em Tirirical.

Serviram a sobremesa para todo mundo, e nada de chegar o pedido do Neiva. No final, mais discursos. Finalmente, aos 45 minutos do segundo tempo, sai da cozinha o chef, todo de branco, avental, dólmã de manga longa branca, chapelão viscoso, luvas, ladeado por dois acólitos - um copeiro e um ajudante de cozinha, igualmente paramentados. Os três empurram um enorme carrinho, lentamente, como se fosse um andor, numa procissão, em direção a Neiva, que ficou gelado. O orador calou, o salão todo parou para acompanhar o ritual.

- Foi o senhor que pediu Crepe Suzette? - perguntou o chef, num tom intimidante, de policial fazendo interrogatório, que soava quase como uma acusação. Neiva, já arrependido, não tinha como negar. Confessou a culpa, gemendo:

- Foi.

O final foi apoteótico. O chef, ajudado pelos acólitos, dobrou a massa em quatro, misturou licores diversos com perfume de sumo de tangerina e de raspa de laranja amarga, regou tudo com um cálice de cointreau, acendeu um fósforo e incendiou o prato fazendo um pequeno estrondo: bum! A massa murchou, encolheu, ficou uma titicazinha de nada. Serviram aquilo em chamas. Era fogo de palha. Tinha mais pompa no nome do que no prato.

- Qual era o gosto, Neiva?

- Rapaz, a quantidade era tão insignificante que nem deu para sentir.

As histórias contadas por Neiva Moreira faziam a gente se dobrar de rir. Quem teve o privilégio de ouvi-lo, sabe disso. Ele narrava sua entrevista com o então presidente do Peru, Juan Velasco Alvarado, um general diferente, simpático, nacionalista, que adorava falar palavrões. Neiva o imitava com perfeição, contrapondo-o ao general de De Gaulle, na Franca, cujas entrevistas coletivas eram exatamente o oposto.

Quando foi lançado em Lima o livro de Neiva Moreira sobre o modelo peruano, o Diretório Acadêmico da centenária Universidad Nacional Mayor de San Marcos o convidou para uma noite de autógrafos e palestra. Os estudantes estavam divididos em dezenas de facções e tendências. As duas mais importantes eram dissidências maoistas que viviam se digladiando, numa disputa acirrada pelo controle da associação estudantil: Bandera Roja, de um lado, e Pátria Roja, de outro.

Na véspera, os autores do convite, que eram bandeiristas, procuraram Neiva para combinarem como seria feito sua segurança. - Segurança pra quê? - ele perguntou. “Nosostros, cuando invitamos, garantizamos la integridad física del invitado. No somos como la gente de Pátria Roja”- lhe disseram. Contaram que o ex-guerrilheiro Héctor Bejar no mês anterior havia levado uma surra, porque o público discordou do conteúdo de sua palestra.

Neiva nos contou que se escafedeu e declinou do convite, seguindo seu instinto de sobrevivência. Suas histórias sobre Heber Maranhão, um engenheiro, também exilado, que foi dirigente da Rede Ferroviária Federal no governo Jango, são deliciosas, especialmente a transformação de Heber em um dos maiores especialistas em PERT, uma técnica de gestão e controle de projetos. Mas meu espaço terminou. Fica para outra vez.

Na madrugada do dia 10 de maio de 2012, aos 94 anos, morreu em São Luis o jornalista e ex-deputado Neiva Moreira, que assessorou o ex-governador Jackson Lago na luta contra a podridão dos Sarney. A presidenta Dilma Rousseff, em nota oficial, falando em nome de todos os brasileiros, lembrou que ele foi um dos fundadores do PDT e que a política brasileira perdeu “um de seus mais expressivos líderes”.

Com ele, perdemos, um certo modo decente de fazer política e, sobretudo, um jeito de contar histórias, que nos divertia com seus ‘causos’, com absoluto domínio de palco, muito fair play e manejo das técnicas narrativas. Que descanse em paz!

criado por luizvianadavid    17:29 — Arquivado em: Sem categoria

11/5/12

Huummm!!!!

À BEIRA DO FOGÃO
(Anastácio Pinto)

O mês de maio chegou e, com ele, o friozinho sorrateiro que vem mudar os hábitos e a rotina das pessoas. Aliás, este é um mês que se destaca dos demais, quer pelos mitos a ele aderidos, ou pelas comemorações que se estendem ao longo de suas trinta e uma vértebras. Conhecido, tradicionalmente, como o mês das noivas, sempre abrigou também a devoção católica das coroações da Virgem Mãe do nosso Cristo. Começa ele pelo dia do trabalho – na verdade consagrado à preguiça – vindo depois o festejo do Dia da Vitória que principia cair na vala do descaso. Segue-se, bem próximo, o dia dedicado às Mães e, logo adiante, as comemorações da Abolição, pra quem entende haver alguma coisa a comemorar neste sentido. Ah, já ia me esquecendo o dia dez de maio, escolhido em homenagem ao Cozinheiro, o que só vim saber muito recentemente, arrematando por atiçar minhas lembranças.

É que o frio desta época faz voltar aos recuados tempos de infância quando, aboletada no rabo do fogão de lenha, a gente ouvia e contava casos que desejava não terminassem nunca… De pouco valiam as advertências sobre os riscos causados pelas demoradas exposições ao calor excessivo das chamas linguarudas nascidas da lenha estalante na fornalha. Mais ou menos convincente, mesmo assim desafiada sempre, era aquela ameaça de que menino muito tempo na beira do fogo acabava mijando na cama. O que parece ser verdade mesmo… Mas, deixa isso pra lá.

De muito proveitoso neste começo de frio é o convite silencioso e irrecusável a nos plantarmos à beira do fogão, entregues a um bom e desapressado papo, enquanto se espera pela comilança que deve obedecer, antes de tudo, o princípio da simplicidade. Os mais sofisticados, por favor, que virem a página. Que venha lá aquela boa sopa de legumes (de entrada, ou corajosamente só) e já estará de bom tamanho. Um bom engrossado de fubá com aquela couve rasgada também vem a calhar. E que tal um franguinho alicerçado no angu e cercado de quiabo por todos os lados? Em se tratando de mês de muitas devoções, também não fica mal uma coligação de ora-pro-nóbis com o dito galináceo. Bem que poderia ser ainda um pescoço de peru assessorado por espessas rodelas de batatas ou, numa decisão extremamente oposta, que venham as batatas fazendo companhia a uma rabada bem temperada. Claro que, se não faltar disposição ao cozinheiro, estas levezas todas podem ceder lugar a um feijão tropeiro bem enriquecido.

Repassando de memória este cardápio, decido por prato diferente e já recomendado, para a noite desta sexta-feira, à Maria do Rosário, professora aposentada, companheira querida e devotada, cozinheira com mestrado e doutorado, a quem dedico estes rabiscos apressadamente temperados.

A ela que sabe, como poucos, preparar uma boa canjiquinha onde tenham naufragado umas carnudas costelinhas bem cozidas. E para realçar o paladar, às favas o preconceito: nada melhor que uma patriótica cachacinha.

criado por luizvianadavid    21:42 — Arquivado em: Sem categoria

10/5/12

O pai da noiva

APERTUME
Geraldo Magela de Faria

Na década de 1950, uma jovem de Pará de Minas ia se casar com um rapaz de Belo Horizonte. Os dois se amavam, os pais de ambos aprovavam o casamento, tudo muito bem. Exceto uma coisa: como convencer o pai da noiva, que só andava descalço e tinha uns dois ou três dentes, a se arrumar para a festa.
Com muito custo, a família combinou com ele: usaria um terno, sem gravata. E ele descartou os sapatos, admitindo, após muita insistência, um par de botas, como é mais comum no meio rural. E concordou ainda em usar dentaduras, mas deixou bem claro: só na hora da cerimônia na igreja e na festa na fazenda, por causa dos parentes do noivo e convidados inclusive alguns que viriam da Capital. Pediram-lhe para usar as dentaduras antes e amaciar as botas para ir se acostumando, mas ele foi irredutível: só na cerimônia e na festa. O que não tem remédio remediado está, diz o ditado popular. Que assim fosse.
Alguns dos mais conceituados profissionais da cidade se esmeraram para colocá-lo nos trinques. O José Bechtlufft fez um elegante terno, o Jacy dentista preparou-lhe um belo par de dentaduras, o Ovídio sapateiro caprichou na confecção das botas; e, na manhã do dia da festa, o Henrique barbeiro aparou-lhe os cabelos e a barba, deixando um fino bigode muito comum na época.
No dia da cerimônia, o homem, levando a filha, agradecia por ser obrigado a ir devagar. Isso porque aquelas botas o estavam matando. Os convidados pensavam que ele estava sorrindo, mas não, é que não conseguia fechar a boca por causa daquelas terríveis dentaduras.
Na cerimônia o Padre Grevy destacou a importância do matrimônio que uniria para sempre aqueles jovens. Até que não falou muito, mas para o pobre homem foi uma eternidade.
Quando terminou a cerimônia, ele, apavorado e incomodado com as dores, descumpriu parte do trato. Aproveitando uma deixa, saiu de fininho, foi para o lado de fora da Igreja Matriz, pegou as dentaduras colocando uma em cada bota, jogou-as num canto e disse, triunfante:
– Agora, cês fica cumendo uma as ôtras queu vô imbora…

criado por luizvianadavid    8:16 — Arquivado em: Sem categoria

9/5/12

Hila Flávia e o facebook

FACEBOOK
Hila Flávia

Perdi a conta de quantos foram os convites para que eu adentrasse no rol dos felizardos usuários do FACEBOOK. Penso até que jamais fui convidada com tanta insistência para nenhum evento, acontecimento, uso, desfrute, festa, bodas, forrós, bailes, viagens, até encontros. Acontece que, a despeito das manifestações em contrário de minha caçula, fiel adepta, ainda não me passa pela cabeça tal atividade. E como tenho também recebido várias indagações sobre por que não, resolvi listar meus motivos. Gosto de raciocinar através de listas. Então vai:

1) Meu uso do computador se restringe a digitar textos, receber e passar minhas cartas e mensagens eletrônicas, fazer uma e outra pesquisa mais urgente, ler todo dia meus blogs preferidos, que são poucos, como o paraensedeminas.blog.terra.com.br, do Luiz Viana David, o almacarioca.net, do Paulo Afonso Teixeira, e academiadeletrasaspm.blogspot.com.br, que é de Pará de Minas. Esses são obrigatórios. Abro algumas vezes por semana outros blogs que me fazem bem à alma, como o da Ana Cláudia, do Júlio Saldanha, do pessoal do patchwork, e algum outro que me indicam e que caem no meu gosto.

2) Ocupo meu tempo com o computador depois do Jornal da Cultura, isto é, por volta das 22 horas. Faço alguns pagamentos, leio o que já indiquei e respondo minha correspondência. A duração é de mais ou menos uma hora. È o tempo de que disponho.

3) No meu dia tenho muitas ocupações incompatíveis com o uso do computador, pois meu ofício é a feitura de colchas de retalhos. Separo os tecidos, faço o esquema, corto e começo a unir as partes formando desenhos coloridos e bem alegres. É um prazer que enche minhas mãos e meu coração. Quando acabo de formar o tampo da colcha, como dizemos, chega a hora da manta e do forro e dos bordados complementares. Esses bordados são feitos à noite, diante de uma televisão que, na maioria das vezes, só escuto. Daí minha predileção por programas que não me empalhem, isto é, nos quais não tenho que ficar prestando atenção. Como noticiários, futebol (olho as boas jogadas berradas com antecedência pelos entusiasmados narradores), musicais, concertos. Para os filmes reservo hora especial, pois faço cineminha e dou a eles atenção plena.

4) Gosto de escrever cartas, dar e receber notícias de meus amigos. Não são muitos não. Penso que são
contados pelos dedos. Mas são pessoas que conheço muito bem, que me conhecem, para as quais não preciso escolher assunto, que me respondem no mesmo tom. Antes escrevia à mão, mas o computador me deu esta magnífica oportunidade de fazer contato quase que diário com eles, sem precisar ir aos correios ou telefonar. Coisa maravilhosa. São mensagens que vão e vêm. Estamos vivos e atentos, é o que elas significam.

5) Como não leio muito bem em tela, quando um assunto que me é enviado requer atenção especial, como os textos do compadre Faria, imprimo, leio e guardo. Por causa da dificuldade, não me é de muita serventia um livro virtual, a não ser que o imprima. Além do que gosto demais de ter um livro nas mãos. Nos damos muito bem, o livro e eu. Há muito e muito tempo.

6) Não sou uma pessoa curiosa da vida alheia. Para falar a verdade, mal dou conta da minha, então não posso ter a veleidade de me ocupar da dos outros. Naturalmente quando sou solicitada e há condição, dou uma ajudinha. Mas não procuro saber por livre e espontânea vontade.

7) Tenho a impressão, e posso até estar errada, de que se está usando o FACEBOOK como análise, confessionário, muro de lamentações, extravasamento de frustrações, de mágoas, repasse de comentários maldosos sobre pessoas até do círculo familiar, relatórios de vida íntima, detalhes de conquistas amorosas, relatórios médicos, confissões de crises conjugais, sem o menor cuidado ou proteção de intimidade. A quem interessa a minha vida particular? Aos milhares de “amigos” que nem conheço?

8) Enfim, o FACEBOOK parece que se tornou um substituto da conversa entre amigos. Esta foi trocada pela conversa virtual com milhares de pessoas que não se conhece. É isto? Se for, como posso me expor numa rede social que é ilimitada, e ter minha privacidade exposta a quem queira ler e fazer uso dela como bem quiser?

9) Diante desse meu raciocínio, penso que o que me impede de aderir é o senso de maturidade e o resguardo duma mineira criada entre montanhas. Fosse eu adolescente, creio que ficaria deslumbrada por fazer tantos “amigos” novos.

10) Então, como dizem meus netos, se é assim, me incluam fora desta. Tô fora! Fui!

criado por luizvianadavid    7:51 — Arquivado em: Sem categoria

8/5/12

Overdose de política patafufense ou assim estão as nuvens hoje

ELEIÇÔES 2012
A CHAPA BRANCA

Quase ninguém entendeu a saida temporária de cena, no mês de Março, supostamente por motivo de férias, do vice-prefeito Eugenio Mansur, pré-candidato a prefeito pela chapa-branca oficial. Pode ser que tenha sido orientado pelo marqueteiro de sua pré-campanha, pois vinha aparecendo em demasia na midia patafufense, provocando severo desgaste em sua imagem. Mais ou menos na época de estratégica retirada, Mansur havia se envolvido em dois desgastantes episódios. No primeiro, ocorrido durante a prestação trimestral das contas públicas municipais, o vice-prefeito ao ironizar (houve quem falou até em deboche) as intervenções críticas do dirigente do PMN, Divalde Quirino, levou-o à beira de um ataque de nervos, que se transformou em AVC, felizmente leve. Divalde foi hospitalizado em Divinópolis, onde permaneceu por alguns dias, mas já retornou à sua residencia e passa bem. O outro episódio foi aquele da omissão do vice-prefeito em encaminhar à Justiça Eleitoral o pedido de filiação do ex-secretário de Obras, Everardo Jeunon. há quem acredite que o “esquecimento” foi proposital, pois no PPS Everardo faria sombra e colocaria em risco a reeleição do vereador Renato Almeida, protegido do vice-prefeito.

Após o descanso, Mansur retornou ao trabalho e à campanha, mas tem a esperá-lo um abacaxi de bom tamanho para ser descascado e não pode demorar, se não, periga levar ao infarto alguns pré-candidatos a vereador. Negócio seguinte: o vereador Marcos Aurélio decidiu que vai disputar a reeleição para o cargo, como é o único candidato de seu partido, DEM, precisa de coligar-se. Como é apontado o favorito para ser o candidato mais votado, sua presença em qualquer coligação, elimina de cara outro favorito, que terá menos votos que o professor. Assim, se depender apenas dos candidatos, se Marcos Aurélio quiser se reeleger, que trate de fazer sozinho o coeficiente eleitoral de seu partido, ou seja, garantir uma votação acima de 2.800 votos, considerada impossivel até mesmo para ele. É o equivalente a 5,5% por cento dos presumidos votos válidos. Votação jamais alcançada na história de Pará de Minas, por um candidato a vereador.

Só por isto os candidatos a vereador pelos partidos da base do deputado Inácio Franco (PV), não querem a presença de Marcos Aurélio no provável chapão a ser formado. A ex-vereadora Cristina Theodoro, que filoiu-se ao PV, por exemplo, disse a este blogueiro, que a aliança com o DEM (Marcos Aurélio) pode levá-la a desistir de candidatar-se. O mal estar na base do senhor dos anéis é latente. Tem gente que nem dorme. Outros fazem beicinho.

A CHAPA DO PSD / ASCIPAM
O pré-candidato que ainda não teve coragem de lançar-se, Elias Diniz, segue fazendo duplo papel e ninguém sabe quando ele fala como pré-candidato a prefeito ou como presidente da ASCIPAM. Aliás, parece que nem mesmo na entidade que preside, Elias é apoiado majoritariamente. Por exemplo, a diretoria paralela, batizada
de ASCIPAM JOVEM, formada por jovens empresários patafufenses, extinguiu-se por inanição, por falta de apoio do presidente às suas inicativas. É que Elias logo percebeu que os jovens empresários eram e são, politicamente independentes, e não são, digamos assim, entusiastas da candidatura a prefeito de Elias. Como não nasceu ontem, o presidente da ASCIPAM deixou morrer a diretoria jovem. Agiu seguindo preceitos de Maquiavel, que ensinou que não se leva prováveis adversários para viver em sua casa.

Ainda sobre Elias, algumas pessoas ligadas ao PMDB reuniram-se sem a presença do deputado Antonio Júlio e decidiram por unanimidade, enviarr ao pré-candidato pedido para que evite uma aliança com Elias Diniz, caso o partido se decida por aliar-se com algum outro. A decisão final ficará sempre com Antonio Júlio, mas os peemedebistas não ficariam à vontade com Elias Diniz na chapa.

O problema com Elias Diniz não é o presente, é o passado. O pré-candidato é conhecido dos paraminenses apenas a partir de sua chegada à cidade há poucos anos. Daí para trás quase ninguém sabe quem é a pessoa. Veio de onde ? Quem são os pais ? A familia ? Onde trabalhou ? E Elias começa a ter este tipo de questionamento. O voto é como uma procuração ampla, geral e irrestrita que se dá ao eleito, para gerir os milhões do erário por quatro anos. E não se tem noticia de alguém que tenha assinado um cheque em branco para um desconhecido. A analogia é mais ou menos esta.

TUCANINHO DO BEM
Geraldinho Cuica, pré-candidato do PSDB ao cargo de prefeito, mudou a rotina de vida. Antes caseiro, agora não perde tempo. Encerrada a jornada diária em seu posto de abastecimento, passou a dedicar boa parte de suas noites para fazer visitas a amigos e conhecidos, levando a noticia de sua provável candidatura e para pedir o voto. Está animado por enquanto. Mas não descarta a possibilidade de uma eventual candidatura a vice, numa chapa encabeçada pelo deputado Antonio Júlio.

A CHAPA DO PMDB
O pré - candidato Antonio Júlio mantém sua opinião de que em não havendo alianças, o candidato a vice de sua chapa será mesmo o vereador Marcilio Sousa, que na dúvida, trabalha dobrado pela própria reeleição ao cargo de vereador, com a intenção de repetir a votação que o fez o candidato mais bem votado dem 2008. No caso de aliança, os peemedebistas fazem restrições apenas ao candidato Elias Diniz, pelo menos até que ele se apresente ao eleitorado de corpo e alma. O temor é de que vencendo a eleição com Elias na chapa, o partido esteja na prática, criando uma jibóia para engoli-lo daqui a quatro anos.

A CHAPA DO PMN
Com o afastamento por algum tempo do dirigente Divalde Quirino, por motivos já mencionados anteriormente. a pré-candidatura do médico / vereador Paulo César, deu uma esfriada. Quirino é quem bota fogo nedsta campanha. a impressão que se tem é a de que ao PMN não interessa uma coligação que reduza seu candidato à condição de vice de qualquer chapa. Deve ir mesmo para a disputa.

A CHAPA DO ASSUNÇÂO
E o sexto nome, por enquanto, pré-lançado à prefeitura, o do video-maker José Assunção, está só na expectativa. O próprio Assunção diz acreditar que no frigir dos ovos teremos muitas desistencias e vão restar apenas dois candidatos: ele próprio e o candidato da Chapa Branca-Oficial. Para José Assunção não será surpresa se Eugenio Mansur desisitir na última hora, como já fez em duas outras oportunidades.

E assim estão hoje, as nuvens da política municipal. E por se tratar de nuvens, amanhã mesmo tudo poderá estar diferente.

criado por luizvianadavid    14:44 — Arquivado em: Sem categoria

Monasita e a pedra no meio do caminho

Vi e gostei da entrevista que a apresentadora de tevê (e atriz do Maracutaia) Monasita Aguiar, fez com o jovem ambientalista José Hermano Melo Franco, que é o secretário-executivo da ong patafufense “Ama Pangéia”. Eu já escrevi aqui no blog, que quando ouço a palavra “ong” minha vontade é de sair correndo. Não acredito numa instituição (as ongs) que se diz não governamental, mas que precisa de dinheiro do governo para existir. E também não tenho muita paciencia com ambientalistas. Mas no caso de José Hermano estou começando a mudar de idéia sobre. Senti nas palavras do Zé Hermano bastante firmeza e conhecimento de causa e fiquei com a impressão de que ele não é, definitvamente, um eco-chato. Só a intenção dele, de buscar soluções simples e locais, para os problemas ambientais da cidade, sem a mirabolancia e o blá-blá-blá cansativo de alguns colegas, já atraem a simpatia daqueles que como eu têm alergia a fazedores de nuvens. E com o Zé Hermano a Ama Pangéia abriu suas portas e janelas e deixou entrar o luz da transparencia. E isto é muito bom.

Em determinado ponto da entrevista, o entrevistado narrou o começo do movimento ecológico, quando as pessoas se abraçavam a árvores ameaçadas de corte, tentando protege-las. Não consegui evitar a lembrança de uma cena que marcou uma época na cidade. Foi há uns vinte anos, quando a prefeitura abria uma extensão da rua Dr. Higino, na Várzea, e no meio do caminho tinha uma pedra. Não uma pedrinha qualquer, mas uma baita de uma pedra, que, quem se lembra dela lá em frente da Chácara Orsini, atual Escola de Artes & Oficios, sabe. Um pedrão. Que precisou bastante dinamite para reduzi-la a pó. Mas não é que a Monsita cismou de proteger a pedra? E protestou, xingou o rpefeito e todos os seus secretários, até promoveu passeata contra o esmigalhamento do granítico bloco. Por fim, quando o dinamitador chegou, a jovenzinha Monacita deitou-se em cima dela e deu o seu grito de revolta: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Acabou saindo, ou melhor, acabou tirada, à força pela policia. Ali nascia a Monasita que participa e protesta, que reinvidica e sugere, que vai à luta em defesa das boas causas, é professora da rede pública estadual e atriz premiada. Uma mulher de valor, que saiu aos seus, não fosse filha dos meus amigos Mauro do Alcindo Aguiar e da Maria do Arthur do Ivo, todos eles já morando no céu. De lá, devem comentar entre sí, vendo as peripécias da filha e neta: esta menina vai longe !

criado por luizvianadavid    9:14 — Arquivado em: Sem categoria

7/5/12

PAIXÃO NACIONAL

Lúcio César, o mais recente cronista patafufense, estará aqui no blog uma vez por mês.
Uma feliz semana para todos os leitores.

PAIXÃO NACIONAL
Lúcio César

Como toda 4a. feira, findo o expediente, ele dirige-se à feirinha próxima ao seu local de trabalho, para uma cervejinha regada a um bom papo – não, não está trocado: o objetivo é a cerveja e o papo é acessório. De luxo, mas acessório. Assim como as próprias compras de verduras e legumes. Mas o que acompanha bem a cervejinha são os seus olhares a uma morena escultural que só não se pode dizer que é de parar o trânsito porque ali o tráfego de veículos já é temporariamente proibido em razão da feirinha.
Esse dia foi especial: a sua mesa ao lado da turma dela, suas cadeiras lado a lado como se estivessem sentados à mesma mesa. E o assunto, por pior que fosse, era comum: a iminente guerra dos Estados Unidos contra o Iraque.
Vai-se um, outro mais e logo restam poucos em ambas as turmas; o assunto, que já era o mesmo, acaba se tornando comum, agora sim como se estivessem em uma mesma mesa.
Assusta-se quando se vê ali, coladinho à sua musa, como se fossem parceiros de copo e de cruz.
E ela começa a lhe falar sobre a guerra, ou melhor, o absurdo da guerra, o desrespeito de Bush à ONU; quem era mais teimoso, ele ou Saddam, quantas vítimas em nome de uma guerra particular contra a qual o mundo se opunha, o risco de gerações americanas continuarem pagando por isso em atentados de radicais mulçumanos… A partir de então, ele não se lembra de mais nada do que ela falou, só tinha ouvidos e olhos para aqueles negros cabelos longos e ondulados, aquela boca carnuda, aquelas pernas longitudinais, aquelas coxas ressaltadas pela saia curta.
Só ficava imaginando uma batalha campal, atracado a ela, rasgando-lhe as roupas, querendo de qualquer maneira atacá-la com sua espada. Bem, como sempre tenta ser fiel aos fatos, corrige mentalmente: sua adaga, apesar de ter certeza de que, quando contar, alguém certamente irá maliciosamente insinuar que o correto seria canivete.
De repente deu-se conta de que mais pessoas foram embora e outras ao banheiro e só os dois estão ali. Precisava urgentemente falar alguma coisa inteligente, mas, diante daquela visão perturbadora, o que lhe saiu foi apenas que ainda é mais a favor do lema “faça amor, não faça guerra”.
Quando percebeu o chavão e já estava pensando em como se suicidar ali (talvez cravando um espetinho de coraçãozinho no seu próprio, já que a coerência sempre foi uma de suas buscas interiores), eis que aquela voz sensual simplesmente respondeu: “Eu também”.
Depois de tantas cervejas, tentando ativar algum neurônio lúcido para um comentário menos idiota que o anterior, saiu-se com essa: “Bem que podíamos fazer amor como protesto a essa guerra estúpida”.
E não é que colou?
Dali para o motel foi um pulo, ou melhor, vários, porque a cada sinal ele pulava sobre ela.
Chegando lá, a imaginária batalha campal tornou-se realidade. Seus corpos atiraram-se um ao outro e entre abraços e beijos as roupas começaram a se espalhar pelo chão.
Eis que surge uma visão maravilhosa: um belo par de seios, naturalmente siliconados por Deus, tentando em vão ser escondidos por um sutiã vermelho-pecado. E continuaram com as trocas de carícias, que só depois foi entender por que são chamadas de preliminares.
Por fim, cai a saia, revelando uma minúscula calcinha preta, rendada.
E assim vê o seu pensamento de toda 4a. feira materializar-se em sua frente: aquela morena maravilhosa, ali, deitada seminua, esperando para fazerem amor.
Ele em pé, diante daquela maravilha da natureza enfeitada por um sutiã vermelho e uma calcinha preta, ao tirar o relógio deu-se conta de que era chegada a hora de desfrutar do maior prazer da vida.
Deu meia-volta, pegou uma cerveja no frigobar, ligou a TV.
Que sorte! O jogo acabara de começar. E o Flamengo no ataque: Bola com Léo Moura, toca para Vagner Love…

criado por luizvianadavid    6:12 — Arquivado em: Sem categoria
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