16/5/12
Como enfeiar uma cidade
COMO ENFEIAR UMA CIDADE
Hila Flávia
Em primeiro lugar, devo confessar que existem três lugares no mundo onde me sinto em casa. Entre os meus. A primeira é minha terra natal, Pará de Minas, que marcou minha vida, meus sentidos e meu coração. A segunda é Belo Horizonte, para onde me mudei pouco antes de me casar, há quase meio século, e que amo de paixão. E a terceira é o Povoado de Furnastur, distante uns 20 quilômetros da cidade de Formiga. Em 1978 fui passear lá e jamais o deixei. Transito entre meus três lares com o mesmo prazer. Gosto de ir, gosto de voltar. Torno a ir, torno a voltar. Nem sei mais qual prefiro. São iguais, cada lugar ocupando um terço do espaço no meu coração destinado ao quesito terra amada.
Mas hoje, vou tratar de Belo Horizonte. Nome acertado a uma bela cidade, que hoje preocupa todo mundo pela sua grandeza, sua densidade populacional, seu volumoso tráfego de veículos. Enfim, cada dia se torna maior e mais difícil se torna transitar nela.
O apelido dado a Belo Horizonte era de Cidade Jardim. Tantas eram as flores e árvores, praças enfeitadas, ruas arborizadas, quintais, casas com jardins cuidados. Hoje, nem tanto. Foram construindo grandes edifícios, pequenos espaços ocupados sem critério, as ruas apinhadas de veículos, ausência de banheiros públicos, de coletores de lixo, enfim, a capital de Minas Gerais está ficando cada dia mais feia e parecida com qualquer cidade grande do mundo. Está cada vez mais perdendo as características que a fizeram ser um jardim.
Antes de contar o porquê de minha indignação, vou apenas lhes contar um caso rápido. Numa tarde chuvosa me bateu uma abissal saudade. Chorei que nem cantou o Chico Buarque: Até ficar com dó de mim. Quando passou o surto, fiz uma lista de minhas saudades, que incluíam desde filho, pais e amigos perdidos, até pele alva, juventude, entusiasmo, etc. e tal. Quando li a lista, que digitei sem olhar, percebi que a única coisa que poderia recuperar seria minhas tranças. Quando jovem tinha um cabelo louro, lindo, que batia quase na cintura. E enrolava as tranças na cabeça que nem uma alemã. Mas era bonito que só vendo. A situação, com o passar dos anos, havia se modificado, pois de amarelo meu cabelo passou a ser cinza. Deixe-o crescer até o tamanho antigo, enrolei minhas tranças do mesmo jeito e fiquei toda feliz.
Agora, com relação a Belo Horizonte, o assunto é o seguinte: Não sei se todos sabem, mas existem inúmeros espaços na cidade, conforme a planta original, que deveriam ser largos e praças e que sofreram construções. Mas muitas mesmo. Deveria ser uma localidade farta de espaços de convivência e lazer. Quem quiser se informar melhor, é só entrar nos sites curraldelrei.blogspot.com.br/2010/06/os-quarteiroes-não-edificaveis-o-caso e curraldelrei.blogspot.com.br.
Apenasmente para exemplificar o descalabro, vou citar três exemplos:
1) A área onde construíram o Colégio Pedro II era para ser uma praça.
2) No triângulo existente entre o Parque Municipal e o Instituto de Educação, confluência da Avenida Afonso Pena, Avenida Carandaí e Rua Pernambuco, construíam os Edifícios Raposo Tavares e Louis Ensch. Era para ser praça.
3) E o pior de todos: o espaço compreendido entre a Avenida Afonso Pena, Rua da Bahia e Rua Tamoios foi um largo lindo. O Edifício Sulacap tem magnífica arquitetura, uma escadaria imponente e a vista para o viaduto Santa Tereza era o encanto de todos. Minha amada e saudosa mãe tinha um parente que trabalhou a vida toda num Banco que ocupava ala do edifício, e sempre íamos lá. E nunca me cansei de passar pela Avenida e ver até o fim do viaduto, seus arcos cheios de histórias e símbolo do passado de nossa capital e de seus escritores. Um dia, nos meados de 1970, num tempo em que ninguém podia dizer coisa alguma a respeito de coisa nenhuma, construíram na frente um “puxadinho” horroroso e provisório. Penso que sabiam do crime ambiental que estavam cometendo, tanto que nem gastaram muito na construção. O lugar se transformou num local perigoso. Pouco tempo depois procurei uma loja que vendia produtos ortopédicos naqueles corredores entre a avenida e a escadaria. Estava com grossas correntes e um enorme cadeado, que foram abertos para minha compra. O dono explicou que se cansou de ser assaltado e incomodado por ladrões, usuários de drogas e traficantes. Comprei o que precisava, com medo, e nunca mais voltei. Hoje sei que naquele espaço se transformou em banheiro público, esconderijos, lugar de drogas e pichações inconvenientes. Quem quiser ver é só passar por lá. E o “puxadinho” continua. Impávido. Ninguém sabe quem é o dono, quanto pagou de suborno para construir aquilo, quem autorizou construção em praça, quanto recebeu, e o que é pior, a quem podemos recorrer para que a vista seja restabelecida, o lugar revitalizado e saneado, tornando-se novamente usável pela população. E está localizado a uma quadra da Prefeitura Municipal. Centro da Capital de Minas Gerais.
A analogia com o caso de minhas tranças é porque considero o espaço do Edifício Sulacap o único que ainda pode ser recuperado. De todos, o único. Como elas representaram minha única recuperação do tempo passado. Como sempre, não conheço nenhum vereador a quem possa pedir uma providência, não tenho acesso às secretarias do senhor prefeito nem a ele. Portanto, dado ao meu estado de desimportância cidadã, e meu extremado amor por Belo Horizonte, peço a quem ler este manifesto à beleza que ajude nossa cidade. Se você tem algum prestígio, conhece alguém que tenha ou pensa que pode fazer alguma coisa, quer entrar nesta corrente?
É um convite que lhe faço de todo coração. Também espalhe esta intenção aos seus contatos. Quem sabe, não é? Afinal, sou brasileira, não perco a esperança.
criado por luizvianadavid
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